Há vida no C2TN em tempos de pandemia IV

sexta-feira, junho 26, 2020

Porque a vida continua sempre, no “Há vida no C2TN”, continuamos a publicar alguns testemunhos sobre a experiência de trabalho remoto, vivida pelos membros do C2TN, em tempos de pandemia.
Hoje deixamos o quarto testemunho...


Que avaliação faz da sua adaptação ao regime de teletrabalho? Quais foram os principais desafios desta mudança? Que oportunidades trouxe esta alteração? Que impacto teve na sua produtividade?
Há muitos anos (provavelmente algumas décadas) que desempenho a minha actividade parcialmente em regime de teletrabalho (além do regime “presencial”). A diferença foi que desta vez durante algumas semanas o regime “presencial” não foi possível pelo que estive integralmente – como uma boa parte dos cidadãos - em regime de teletrabalho.
Os principais desafios foram de índole da física, psicológica e sociológica.
Desafios de índole física: a necessidade de sair de casa, para praticar exercício ou espairecer, respeitando as regras em vigor e considerando que boa parte dos locais de “lazer” (parques, praias, passeios, restaurantes, lojas, etc…), instalações e infraestruturas estavam encerradas ou com acesso restrito ou controlado.
Desafios de índole psicológica: a necessidade de controlar a ansiedade, um certo desânimo e derrotismo, face à situação catastrófica e disruptiva decorrente da pandemia e filtrar o enorme impacto da informação fornecida pelos media.
Desafios de índole sociológica, devido à necessidade de redistribuir e reequilibrar emoções, partilhar os mesmos espaços com a família, mas com uma intensidade diferente e gerir o impacto da situação dramática do ponto de vista da saúde pública, dos dramas dos doentes, das pessoas cujas vidas se alteraram dramaticamente num espaço de dias, em Portugal e no Mundo, do confinamento de familiares e pessoas conhecidas idosas, entre outros.
Oportunidades: o aspecto positivo desta pandemia foi paradoxalmente obrigar-nos a parar para reflectir! Tivemos que re-equacionar o nosso estilo de vida do ponto de vista tecnológico, de hábitos, da higiene pessoal, ambiental, de sustentabilidade, dos padrões de consumo, etc.
Temos que re-definir o nosso posicionamento face à globalização, às mudanças climáticas, às desigualdades sociais, ao reconhecimento que a sociedade tem relativamente a profissões tão importantes como as relacionadas com a Saúde (entre várias outras, incluindo os profissionais do sector agroalimentar, dos transportes, etc.)
Subscrevo quem disse que foi para os jovens a maior experiência da vida deles, para mim foi/está a ser mais uma experiência colossal!
Espero que o teletrabalho esteja para ficar. Espero que os impactos (positivos) ambientais de uma diminuição do número de viaturas em circulação, de novas formas de trabalhar e produzir (no sentido lato), de novos padrões na escolha, utilização e processamento de materiais, etc. sejam aproveitados por todos nós (a começar pelos cidadãos que podemos influenciar os decisores) para garantir uma maior sustentabilidade do nosso estilo de vida.
Considero que o impacto na minha produtividade não foi significativo, o maior impacto foi relativamente aos métodos de (tele-)trabalho, com a utilização maciça das plataformas já conhecidas (Zoom, WebEx, Skype, outras).

A pandemia evidenciou a existência de ferramentas de trabalho à distância, que talvez pudessem ser usadas regularmente em circunstâncias “normais”. Prevê no futuro continuar a usar algumas dessas ferramentas? Pretende adoptar sempre que possível o regime de teletrabalho?
Partilho da opinião daqueles que consideram que o teletrabalho não só não diminui como pode potencialmente (com comportamentos responsáveis) aumentar a produtividade dos trabalhadores. Creio que todos nós utilizaremos futuramente as ferramentas de trabalho à distância, com ganhos de produtividade e poupanças do ponto de vista económico. Creio contudo que as reuniões presenciais continuarão a ser imprescindíveis. É muito mais “fácil” ter uma discussão “acalorada” (mas produtiva) presencialmente do que no ciberespaço. Somos humanos.

Como antevê o regresso ao trabalho presencial? Sente-se seguro? Sentiu-se apoiado, informado pela sua instituição? Como avaliaria a interação do Técnico e do C2TN, em particular, com os seus membros?
Creio que nas circunstâncias inesperadas, dramáticas e sem precedentes e a celeridade com que esta pandemia se instalou e desenvolveu, o IST esteve globalmente bem na gestão da crise nas suas múltiplas etapas e vertentes. Por deformação profissional, presto muita atenção à componente de comunicação e gestão, em que considero que o IST esteve bem. Podemos sempre identificar aqui e ali aspectos que poderiam ter sido melhor geridos, mas globalmente faço uma apreciação bastante positiva.
Quanto ao C2TN não me pronunciarei por razões óbvias quanto ao meu papel. Creio que estiveram/estão de parabéns os membros do C2TN pelo seu comportamento e pelas múltiplas contribuições em aspectos ligados à pandemia (análises de COVID-19, fornecimento de material na fase inicial), ao teletrabalho, à observância das recomendações, à serenidade com que reagiram.
Quanto ao regresso ao trabalho presencial: creio que os próximos meses serão exigentes. A desconfiança e o receio de contágio estarão presentes até que uma vacina ou terapia robusta e eficaz existam/sejam desenvolvidas. Até lá, temos que viver com os receios e ansiedades que embora diferentes são comuns (genericamente) a outras doenças graves.

A pandemia veio mostrar que é possível, até por vontade política, a mobilização para uma alteração global de comportamentos. Considera que existe aqui uma oportunidade para pensar em como se pode efetivamente implementar políticas, por exemplo, em relação às mudanças climáticas e boas práticas para um futuro sustentável?
Excelente questão a que já respondi parcialmente na primeira pergunta.
As fotografias obtidas via satélite das regiões que estiveram em forte confinamento (nomeadamente na China e em Itália) são exemplos do impacto que o nosso actual estilo de vida tem nas alterações climáticas, na poluição, e na (falta de) sustentabilidade da actividade humana, nomeadamente do ponto de vista ambiental e social.
Por outro lado, a origem da pandemia e a transmissão do vírus até aos humanos, aponta para os efeitos potencialmente devastadores de uma actividade económica demasiadamente norteada por critérios economicistas e financeiros e desrespeitosa dos equilíbrios na biosfera, da sustentabilidade ambiental, etc.
Se os decisores aprenderam, se melhores práticas e melhor regulação será implementada? É uma pergunta à qual não consigo responder.

Pedro Vaz, Investigador Coordenador e Presidente do C2TN

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Duas considerações finais:
1. Embora sejam sobejamente conhecidas e recorrentemente utilizadas, parecem-me muito adequadas à situação que actualmente vivemos:
“The pessimist sees difficulty in every opportunity. The optimist sees the opportunity in every difficulty.”
“Now this is not the end. It is not even the beginning of the end. But it is, perhaps, the end of the beginning.”
Winston Churchill

2. Esta pandemia veio também por em evidência, mesmo para os mais cépticos, uma riqueza que Portugal tem: o seu Serviço Nacional de Saúde, que foi, em minha opinião, um dos factores que permitiu (e continua a permitir) uma resposta mais eficaz em Portugal relativamente a outros países, à pandemia e crise sanitária decorrente. Faço esta afirmação sem conotações políticas.


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