Há vida no C2TN em tempos de pandemia I

quinta-feira, maio 28, 2020

Porque a vida continua sempre, no “Há vida no C2TN”, iremos publicar alguns testemunhos sobre a experiência de trabalho remoto, vivida pelos membros do C2TN, em tempos de pandemia.
Hoje deixamos o primeiro testemunho...




Que avaliação faz da sua adaptação ao regime de teletrabalho? Quais foram os principais desafios desta mudança? Que oportunidades trouxe esta alteração? Que impacto teve na sua produtividade?
O regime de teletrabalho foi uma adaptação natural que teve de ser feita, como em qualquer circunstância nova que possa surgir nas nossas vidas. Numa altura em que me encontro numa fase já avançada de um doutoramento entre o C2TN e a Universidade de Coimbra, senti a certa altura alguma dificuldade. Esta paragem trouxe-me uma oportunidade de fazer uma retrospectiva do trabalho feito até à data, mas os primeiros dias foram mais produtivos do que os últimos. Seria mais chato para mim se tal pandemia tivesse surgido mais tarde. Contudo, e embora tenha tido a sorte de ter estado confinado num local simpático e acolhedor, preferia estar na minha “vida de estrada” a saltitar entre as minhas duas instituições de acolhimento.


A pandemia evidenciou a existência de ferramentas de trabalho à distância, que talvez pudessem ser usadas regularmente em circunstâncias “normais”. Prevê no futuro continuar a usar algumas dessas ferramentas? Pretende adoptar sempre que possível o regime de teletrabalho?
De facto, a pandemia conseguiu evidenciar uma série de ferramentas já existentes, mas quase desconhecidas para algumas pessoas. Teve que existir uma adaptação não só do sector da ciência, mas de todos os sectores a um regime que foi uma novidade para muitos. O teletrabalho apenas era uma realidade para um grupo restrito de pessoas e, dada a pandemia, tornou-se numa alternativa para grande parte dos trabalhadores. Como a maioria dos resultados em ciência provêm de uma forte componente laboratorial, a investigação científica foi um sector bastante penalizado pela pandemia. Contudo, existem vantagens e desvantagens no teletrabalho assim como existem pessoas que têm mais condições para usufruírem deste regime do que outras. Aprendi imenso com estas ferramentas, tive algumas ideias novas durante o confinamento, mas continuo a não ser grande adepto de trabalhar em casa. Mesmo que não tenha parte laboratorial para fazer gosto de estar no meu local de trabalho a escrever ou a tratar de resultados, a minha produtividade tende sempre a ser maior. Porém, julgo que no futuro o teletrabalho passará a ser algo recorrente em qualquer sector, e a ciência não será excepção.



Como antevê o regresso ao trabalho presencial? Sente-se seguro? Sentiu-se apoiado, informado pela sua instituição? Como avaliaria a interação do Técnico e do C2TN, em particular, com os seus membros?
Já regressei ao meu trabalho em Coimbra com as devidas precauções, sinto-me seguro, não há turnos pois não há muita gente a trabalhar. Depois de uma rotina intensa, entre duas cidades que distam 200 quilómetros uma da outra, custa parar assim como custa voltar à mesma rotina depois de um longo período de paragem. Com isto acabei por sentir duas ressacas distintas, uma no início do teletrabalho e outra no regresso ao trabalho presencial, mas que atenuaram rapidamente. O tempo perdido é sempre algo que terá que ser recuperado ao máximo, independentemente de eventuais prorrogações dos financiamentos a bolsas e projectos. Ter de andar de máscara dentro dos edifícios, evitar o contacto social, lavar constantemente as mãos é uma realidade a que todos estamos sujeitos. No que toca à interacção do Técnico e do C2TN com os seus membros acho que está tudo a ser muito bem organizado, por aquilo que oiço de alguns colegas que já regressaram. Houve uma divulgação clara, sem qualquer avalanche de notícias e regras a toda a hora nos e-mails, e julgo que este regresso gradual terá tudo para correr bem. Como existem projectos prioritários que estão a acabar, e um limite fixo de pessoas em cada laboratório, não sei quando deverei regressar ao CTN, embora já sinta saudades!



A pandemia veio mostrar que é possível, até por vontade política, a mobilização para uma alteração global de comportamentos. Considera que existe aqui uma oportunidade para pensar em como se pode efetivamente implementar políticas, por exemplo, em relação às mudanças climáticas e boas práticas para um futuro sustentável?
Acredito que haja uma alteração de certos comportamentos, mas nada que seja tão drástico quanto isso. Sou um pouco céptico quanto à questão de que “as coisas vão mudar” depois da pandemia, como há quem faça parecer. É certo que não estávamos preparados para algo desta dimensão e hoje sabemos como agir no futuro, pois o vírus não desapareceu e uma situação idêntica pode voltar a repetir-se. Iremos ter todos os cuidados e precauções necessárias no início, mas não deverá demorar muito até que as pessoas no geral voltem às mesmas atitudes que tinham antes. Vêm aí tempos que serão difíceis, do ponto de vista socio-económico, e a ciência também irá certamente sofrer muito com isso. Nas eventuais medidas que possam surgir para o combate a uma crise eminente, será necessária a inclusão de políticas que promovam a sustentabilidade e as boas práticas no futuro, valorizando as questões ambientais e alertando para possíveis riscos, tudo isto longe da complacência e do fanatismo gerado pelas fake news. Independentemente de vir a existir uma eventual vacina ou tratamento, cabe a todos nós contribuir para execução e valorização dessas mesmas práticas de modo a que possamos aprender a viver novamente, regressando ao que éramos dantes, e ao que ainda hoje somos.


Zé Malta, estudante de doutoramento no C2TN e CFisUC

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