I.Tesouros da antiguidade enterrados em território nacional

quarta-feira, fevereiro 28, 2018


"Património: onde o passado encontra o futuro"

É sob este lema que se celebra, pela primeira vez, o Ano Europeu do Património Cultural. Esta iniciativa da União Europeia tem em vista a consagração e sensibilização das populações para a história e o património europeu, uma iniciativa a ser aplicada a todos os níveis: europeu, nacional, regional e local. O C2TN decidiu abraçar esta iniciativa através de uma série de artigos de divulgação do trabalho que se faz no nosso centro, que serão publicados ao longo do ano. Do que está à espera? Venha descobrir e explorar o património cultural de Portugal connosco. Aqui vos deixamos o primeiro artigo.

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Tesouros da antiguidade enterrados em território nacional

Após mais de 2500 anos “escondidos” em três sepulturas da I Idade do Ferro, uma colecção de pendentes e contas de colar de ouro foi agora estudada através de métodos não invasivos, revelando-nos importantes pistas sobre a arte de produção de joalharia pelos ourives da época.

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Há mais de 2500 anos, mais precisamente na I Idade do Ferro, três indivíduos foram sepultados na região hoje conhecida como Alentejo. Com eles foram também depositados diversos tesouros. Esta herança arqueológica permaneceu escondida durante mais de dois milénios, até 2013, ano em que foi descoberta, na sequência da construção de sistemas de rega associados à Barragem do Alqueva. Os tesouros encontrados “sobreviveram” ao passar do tempo e, através de tecnologias nucleares, contam-nos hoje coisas do nosso passado.  

Em 2013, a arqueóloga Lídia Baptista, coordenadora das escavações arqueológicas no sítio do Monte do Bolor 1-2 (São Brissos, Beja), descobre diversas sepulturas com importantes espólios funerários – contas de colar, pendentes, pulseiras e anéis. Nesta época era comum sepultar os indivíduos com os seus pertences e dádivas funerárias, sendo esta uma demonstração do seu estatuto. Não é então difícil deduzir que espólios mais ricos pertenceriam a líderes daquelas comunidades. De facto, num dos enterramentos estudados descobriu-se uma mulher sepultada com onze contas de ouro sob o crânio, sugerindo que deveria ser hierarquicamente importante. Ao lado deste enterramento foi também identificada outra sepultura, parcialmente violada, mas que continha ainda um pendente de ouro.

Simultânea (e curiosamente), nesse mesmo ano, o arqueólogo Ever Calvo coordenava escavações arqueológicas a menos de 25 km de distância, num outro local, a Quinta do Castelo 5 (Salvador, Beja). Aqui, os trabalhos identificaram também uma sepultura com um vasto espólio, incluindo onze contas e três pendentes de ouro, dispostos igualmente em redor e sob o crânio do esqueleto.



Uma das primeiras conclusões a que se chegou é que a extraordinária semelhança entre as sepulturas e os espólios funerários revela que os enterramentos deverão ser contemporâneos. Os espólios funerários – jóias de ouro e outros ornamentos em prata, âmbar, vidro e faiança Egípcia – permitiram ainda dar resposta à questão ‘De quando datam estas sepulturas?’, pois enquadram-nas nos séculos VII-VI a.C., correspondendo à I Idade do Ferro (c. 850-400 a.C.).

Para além disto, o facto de se terem encontrado jóias muito parecidas em locais diferentes fez surgir uma hipótese: terão as jóias de ouro que adornavam os indivíduos sepultados em dois locais diferentes sido produzidas na mesma oficina metalúrgica?

Como se estudou esta hipótese?

A primeira fase consistiu na identificação dos componentes individuais de cada jóia através de observações por microscopia óptica, pois esta técnica permite observar objectos muito pequenos com grande detalhe.

Contas: Monte do Bolor 1-2 vs. Quinta do Castelo 5

Verificou-se que as contas esféricas apresentam o mesmo modelo constituído por quatro componentes: duas chapas hemisféricas ornamentadas por dois fios de ouro (técnica de decoração em filigrana, introduzida pelos Fenícios na Península Ibérica). No entanto, a filigrana utilizada em cada um dos dois conjuntos é diferente, pois os exemplares do Monte do Bolor 1-2 apresentam um fio maciço torcido, enquanto nos paralelos da Quinta do Castelo 5 foi utilizada filigrana oca enrolada.



Pendentes: Monte do Bolor 1-2 vs. Quinta do Castelo 5

Os pendentes apresentam também o mesmo esquema conceptual mas com detalhes diferentes. Em comum, cada exemplar exibe uma chapa traseira plana e uma chapa frontal decorada, ambas circunscritas por filigrana de fio maciço torcido. Por oposição, o suporte é ornamentado por filigrana de diferente tipo: fio maciço no pendente do Monte do Bolor 1-2 e filigrana oca enrolada nos exemplares da Quinta do Castelo 5.

O segundo passo deste estudo consistiu na determinação da composição elementar dos componentes de cada jóia. Isto é, em descobrir quais os metais usados no seu fabrico, como sejam o ouro, prata e cobre. Esta análise é obtida pela técnica de micro espectrometria de fluorescência de raios X, dispersiva de energias, realizada no âmbito de uma colaboração com o Departamento de Conservação e Restauro (FCT-NOVA). Como funciona esta técnica? Ao serem irradiados por raios X, os átomos que compõem a amostra vão emitir radiação característica, que permite a sua identificação e quantificação

Composição das jóias da Quinta do Castelo 5

As contas e pendentes do espólio da Quinta do Castelo 5 apresentam uma composição bastante uniforme (17-18 quilates), o que reforça a ideia de terem uma origem comum, ou seja, de terem sido produzidas na mesma oficina metalúrgica. 

Composição das jóias do Monte do Bolor 1-2

Nos exemplares do Monte do Bolor 1-2 foi identificada uma situação algo distinta, pois as ligas são ligeiramente diferentes: a composição do pendente é de 14-15 quilates, enquanto a das contas é de 13 quilates. Isto sugere que o pendente e o conjunto de contas poderão ter sido produzidos na mesma oficina, mas em alturas diferentes ou por ourives diferentes.

Oficinas de ourives na I Idade do Ferro

Nesta joalharia antiga, é provável que a adição de quantidades elevadas de prata (até 40 %) fosse uma forma de poupar na matéria-prima mais preciosa: o ouro. Mas, ao utilizar elevadas quantidades de prata, as ligas de ouro exibiriam uma cor amarela pálida. Então, é possível que a utilização de cobre (2-4 %) fosse uma tentativa de obter uma liga com um tom mais dourado, de forma a imitar mais fielmente o brilho do ouro puro.



As diferenças encontradas nas ligas de ouro e nos métodos de produção sugerem que as jóias da Quinta do Castelo 5 e Monte do Bolor 1-2 têm uma origem distinta. Ou seja, muito provavelmente estas jóias foram produzidas em duas oficinas de ourives, apesar da grande proximidade dos recintos funerários onde foram descobertas.

Por outro lado, as semelhanças na composição elementar e métodos de produção entre o pendente e conjunto de contas do Monte do Bolor 1-2 reforçam a relação entre os dois indivíduos sepultados no mesmo recinto funerário. É assim fácil imaginar que seriam parentes próximos e que provavelmente pertenciam à família que liderava esse povoado.

Estes indivíduos poderiam permanecer incógnitos para sempre, mas o espólio encontrado e o trabalho desenvolvido no C2TN revelou algo sobre eles e a sociedade em que se inseriam. Decerto, permite perceber um pouco mais sobre os métodos de produção de joalharia durante a I Idade do Ferro no Sul de Portugal. Tal só foi possível cruzando conhecimento das áreas da arqueologia, química e ciência das radiações. Estudos futuros poderão descobrir mais informação para completar esta história sobre quem, milénios antes, viveu nas mesmas terras em que nós hoje vivemos.

Quer saber mais sobre este trabalho? Não hesite em contactar-nos ou obtenha mais informação no nosso site!

Trabalho da autoria de Pedro Valério



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Ancient treasures buried in the Portuguese territory


A collection of gold pendants and beads “hidden” more than 2500 years ago in three graves from the Early Iron Age has now been studied through non-invasive methods, revealing important leads on the art of production of jewellery by ancient goldsmiths.

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More than 2500 years ago, more precisely during the Early Iron Age, three individuals were buried in the Portuguese region known today as Alentejo. With them several treasures were equally buried. This archaeological heritage remained hidden for over two millenniums up until 2013, when it was found as a result of the construction of an irrigation system connected to the Alqueva Dam. The treasures found have survived to the course of time and, through nuclear analytical techniques, give us today hints from our past.

In 2013, the archaeologist Lídia Baptista, who directed the archaeological excavations at Monte do Bolor 1-2 (São Brissos, Beja), discovered several burials containing important grave goods – beads, pendants, bracelets and rings. At this time, it was common to bury people with their possessions and funerary offerings, as a demonstration of status. It is easy to assume that richer spoils belonged to the leaders of those communities, such as a woman buried together with eleven gold beads under her skull, suggesting a higher hierarchy. Next to this grave, another one was identified, although partially disturbed and containing still a gold pendant. 

Simultaneously (and curiously), in that same year, the archaeologist Ever Calvo directed archaeological excavations less than 25 km afar, in another site: Quinta do Castelo 5 (Salvador, Beja).  The work here developed allowed the identification of a grave with an impressive set of grave goods, comprising eleven beads and three gold pendants, also placed on the skull of the skeleton. 



The remarkable similarities between these funerary contexts and between their artefacts indicate that the burials are very likely to be contemporary. Moreover, the grave goods – gold jewellery and other ornaments made of silver, amber, glass and Egyptian faience – allowed to answer the question “From when are these burials?”, as they imply a chronology of the 7th-6th century BC, thus belonging to the Early Iron Age (c. 850-400 BC). 

Besides this, the fact that very similar jewellery was found in different locations has led to the following hypothesis: were the golden jewels found in the individuals buried in two different locations produced in the same metallurgical workshop?

How was this hypothesis tested?

The initial stage of the study consisted in identifying the individual components of each jewel through optical microscopy observations since this technique allows examining in great detail very small objects.  

Beads: Monte do Bolor 1-2 vs. Quinta do Castelo 5

It was established that the spherical beads of Quinta do Castelo 5 and Monte do Bolor 1-2 have the same design, consisting of four individual components: two hemispherical sheets decorated by two filigree wires (decoration technique introduced in the Iberian Peninsula by the Phoenicians). However, the type of filigree used in each one of these sets is different: the beads of Monte do Bolor 1-2 have a twisted wire, while the counterparts of Quinta do Castelo 5 show a hollow wire.



Pendants: Monte do Bolor 1-2 vs. Quinta do Castelo 5

The pendants also exhibit a single design with components of different type: a decorated front plate and a flat reverse plate, being both circumscribed by twisted wire filigree. However, each support is decorated with different filigree wires: massive wires in pendant of Monte do Bolor 1-2 and hollow filigree in pendants of Quinta do Castelo 5. 

The second stage of this study entailed the identification of the elemental composition of the individual components of each jewel, i.e. on determining which metals (gold, silver and copper) were used for the production of such jewellery. This analysis was possible through micro energy dispersive X-ray fluorescence spectrometry performed in the framework of collaboration with Department of Conservation and Restoration (FCT-NOVA). How does this technique work? The atoms constituting the sample are irradiated with X-rays, thus emitting characteristic radiation that in turn allows their identification and quantification

Composition of jewels from Quinta do Castelo 5

The beads and pendants from Quinta do Castelo 5 have a homogeneous composition (17-18K gold) suggesting the manufacture of this treasure in a single metallurgical workshop. 

Composition of jewels from Monte do Bolor 1-2

A somewhat different situation was identified in the set of Monte do Bolor 1-2 as the alloys showed slightly different grade: the pendant’s composition is of 14-15K gold whereas the beads’ composition is of 13K gold. They have been probably produced at the same workshop although by different goldsmiths or at different times.

Gold workshops of the Early Iron Age

In the manufacture of this ancient gold jewellery the addition of high quantities of silver (up to 40 %) was a way of saving the most precious raw material: gold. However, as a consequence, the jewels would have a fairly pale yellow colour. And that is very probably the reason why they would also add copper (2-4 %), as an attempt to obtain a shinier golden colour. 


The differences found both in the gold alloys and in the production methods indicate that the jewels from Quinta do Castelo 5 and Monte do Bolor 1-2 have a distinct origin. This means that, very probably, the jewels were produced in two gold workshops, in spite of the great proximity between both archaeological sites.

Moreover, the similarities between the pendant and beads from Monte do Bolor 1-2 strengthen the relationship between the two individuals buried in this necropolis. One can imagine that these persons were close relatives, probably belonging to the high hierarchy that ruled a settlement located near this location.

These individuals could have remained anonymous forever, but the grave goods carefully studied in C2TN, disclose some clues about them and their society. For sure this work has allowed us to better understand the production methods of gold jewellery during the Iron Age in south Portugal. This was only possible by interconnecting archaeological, chemical, and radiation sciences knowledge. Future studies may lead to further information to complete this story about who, millennia before, lived in the same places we live today.

Want to know more? Do not hesitate to contact us or check out our website for more information!

Work authored by Pedro Valério

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